Esse texto eu tirei do Blog radioactiveunicorns.com é grande,eu sei,mas é bem legal!
O Natal sempre me traz uma sensação estranha. As festas de fim de ano no geral fazem isso comigo. O mês de dezembro faz meu estômago embrulhar. Eu adoro essas festas porque como peru e aquele tipo de frango que me lembra o nome do mafioso mais famoso de todos os tempos. Também adoro a salada de maracujá que minha mãe faz. A farofa macia com azeitonas, milho e ovo cozido. As sobremesas são diferentes a cada ano, mas sempre variando entre pavê de pêssego ou sonho de valsa, brigadeirão, pudim e sorvete de nozes. Além disso, ainda têm as frutas da época. Sacos e mais sacos de cerejas. Tô ficando com fome. Sempre acabo falando de comida no final das contas e esqueço o que queria falar desde o começo. Será que é dislexia? Ou é só gordice mesmo? Enfim, o Natal. Me dá essa coisa estranha que eu não sei explicar. Acho que é o maior misto de tristeza e felicidade que eu sinto durante o ano. Nessa data, tudo é igual. Não me lembro de um dia 24 de dezembro que tenha sido diferente. Acho que até os vestidos que usei eram iguais. Provavelmente floridos e com decote coração. Eu adoro tanto esse tipo de vestido que acabo comprando vários iguaizinhos sem perceber. Eu adoro passar o Natal com a minha mãe. É um dos poucos dias do ano em que ela esquece do trabalho e dos outros milhares de compromissos pra viver exclusivamente aquela data. Ela fica ali comigo, prestando atenção de verdade no que eu tô falando, e eu nela. E como eu amo minha mãe. Apesar de ela estar sempre por perto, sinto muita falta de conviver com ela de verdade. Só nós duas, indo no cinema, assistir alguma comédia romântica horrível. Todas iguais. Nem sempre tão horríveis, mas todas iguais. Ela adora. E eu adoro estar com ela. Meu pai continua o mesmo. Se debulha sobre os pratos de comida, bebe algumas cervejas e conversa com o marido da minha tia sobre algum esporte ou algo parecido. Tenta ficar acordado até mais tarde, mas sem muitosucesso acaba pegando no sono na rede do jardim. Minha avó acaba ficando meio enérgica. Quer que tudo dê certo e que nossa ceia seja perfeita, como em um filme da sessão da tarde, desses que passam no fim do ano. Ela fica tão ansiosa que acaba deixando minha mãe um pouco incomodada. Minha avó é o tipo de avó que todo mundo ama. Ela é branquinha e tem a pele rosada, os olhos verdes e o cabelo curtinho e escuro. É muito doce e conta sempre as mesmas histórias. Um dia nós dissemos isso à ela, mas depois de alguns minutos ela já havia esquecido e voltou a repetir as histórias. A gente sempre passa o Natal aqui na minha casa, que é espaçosa o suficiente pra abrigar confortavelmente nossa família pequena. Nem sempre os personagens são os mesmos. Às vezes meu avô, pai do meu pai, vêm nos visitar. Depois que minha outra avó morreu, nossa família se separou de alguma forma. Meus avós foram morar na praia quando ela estava doente (e ninguém da família sabia), e depois de tudo que aconteceu, meu avô permaneceu lá, sózinho. O irmão do meu pai não vem mais passar as festas com a gente, e eu mal vejo minha prima, que nessa altura do campeonato já deve até ter um namorado na escola. Isso não tem nada a ver com essa história, mas o irmão da minha mãe também não vem. Isso me deixa bem chateada, já que nos últimos dois anos eu voltei a ter contato com meu primo, que eu amo muito e gostaria de ter por perto nessas festas. Mas a minha tia, irmã da minha mãe, ela sempre vem. Ela sempre esteve com a gente, em todos os aniversários, festas e datas especiais. E nos dias comuns também. Quando eu era pequena, ela era a tia que dava os presentes de aniversário mais legais. Minha tia gosta de falar sobre assuntos atuais e a gente dá bastante risada. Ela é médica e é muito inteligente. Aposto que ela está lendo esse texto agora. Toda vez que a família se encontra, nós duas nos unimos pra falar coisas ruins sobre o cigarro nos ouvidos da minha mãe e do meu irmão. E toda vez meu irmão ri tímido e diz que vai parar de fumar. Minha mãe resmunga que não vai parar porque o médico fez um raio-x e viu que o pulmão dela ainda era cor de rosa. Não sei se pulmões podem ficar dessa cor. Eu costumo imaginá-los meio cinza e molengos. O marido da minha tia é simpático e bem humorado. Do tipo de gente que não incomoda ninguém. Ele gosta de ler livros sinistros, apesar de ser um cara bem comum. Usa camisa pólo com frequência e é bem magrinho, mesmo comendo algumas toneladas de comida durante os almoços em família. Sinto bastante inveja desa genética generosa. Meu irmão tenta socializar um pouquinho ali e acolá, mas depois de alguns minutos volta pro quarto e se enfia na frente do computador. Eu gosto de dar uma atenção especial pro banquete que minha mãe e avó preparam e repito o prato várias vezes durante a noite, por isso ignoro um pouco a internet durante essa data. Só comida de Natal pra me tirar da frente do computador. Sinto saudade de quando escrevia no papel. Sempre tive muitos diários. Meu irmão sempre lia o que não devia e usava meus segredos pra me chantagear. Lembro que uma vez ganhei um ingresso do Hopi Hari em uma revista e escondi dentro da bandeja do cd da CPU velha que tinha no meu quarto, e escrevi no meu diário contando sobre meu novo esconderijo secreto e sobre como eu estava feliz por ter meu ingresso seguro das garras do meu irmão. E ele leu e pegou o ingresso pra ele. No final das contas, ninguém foi no parque. Os presentes não são mais os mesmos. Sei lá, parece que foram dados pelo simples fato de que o Natal é uma data aonde pessoas trocam presentes e ponto. A gente compra uma roupa, um livro ou uma garrafa de bebida e dá de presente, mas é só pra não passar em branco. Não tem mais significado. Me dá uma nostalgia de algo que vivi pouquíssimo, antes da era digital dominar nossa geração. Aquela época em que eu escrevia no papel. Que eu fazia um desenho pro meu pai e pra minha mãe e escrevia uma cartinha de todo o meu coração. Sem palavras complicadas ou versos construídos. Só frases simples e sinceras, assinadas com um “Eu te amo mais que tudo”. Quando eu era pequena gostava de ganhar bonecas e livros. Quanto mais coloridos e cheios de figuras, melhor. Gostava de fingir que tinha minha biblioteca e que as bonecas eram minhas clientes. Gostava de ler os livros em voz alta para elas. Na pré-adolescência, eu gostava de ganhar cd’s e livros. Dessa vez, os livros já não eram tão coloridos e haviam poucos ou nenhum desenho, mas falavam sobre mundos encantados. Harry Potter e O Diário da Princesa. No Discman, tocava Sandy e Junior, The Calling, Blink e aquele cd da Malhação que tinha o cabeção no encarte. Na adolescência, eu só pensava em ganhar roupas. Tinha tanta coisa dentro da minha cabeça que eu queria colocar pra fora. Mostrar pras pessoas que eu era diferente. Que eu era especial e via coisas que ninguém mais podia ver. E tentava de alguma forma vestir esses sentimentos, sem muito sucesso. Nessa época eu já havia parado de escrever cartinhas pros meus pais. Não tinha dinheiro pra comprar presentes e já me sentia crescida demais pra fazer um presente como um desenho pro meu pai ou uma caixinha de palitos de sorvete pra minha mãe. E eu acho que foi aí que tudo começou a mudar. Hoje, eu queria ganhar uma coisa bem bonita da minha mãe e do meu pai. No ano passado eu pedi um computador caro, esse aqui que eu tô usando pra escrever esse texto. Mas nesse ano, eu quero ganhar uma coisa bem bonita. Um livro com dedicatória, um cd gravado com as músicas que eles mais gostavam de ouvir quando tinham minha idade. Acho que eu quero mesmo é ganhar um diário de papel. “Te comprei porque me fez lembrar de você”. E sempre que eu olhar, tocar, ler ou escutar aquilo, eu vou lembrar deles também. Eu acho que amoleci. Na adolescência, a gente vira pedra por fora, enquanto é um monte de geléia por dentro. A gente finge tanto que não tá nem aí, que acaba ficando nem aí mesmo. E conforme vai crescendo, a geléia que tava boiando lá dentro, se transforma em pedra também. Eu acho que me perdi um pouco do que realmente importava. Me prendi à coisas que, no final das contas, não têm valor. Não o valor de ter uma família que te ama do seu lado e amigos pra viver momentos que você vai contar para os netos depois. E eu acho que é isso que acontece comigo quando chega o Natal. Nessa data que era pra ser o momento do sentimental; e a geração Y, a internet, as liquidações e a ambição que a gente carrega desde a época da escola de ter sucesso profissional, fizeram virar o momento do material e do “olha o que eu tenho e você não tem”. A nostalgia do que eu quase não vivi… do sentimento de conexão com as pessoas de uma forma real, e não superficial, do carinho verdadeiro e de comprar ou fazer um presente com o coração. É isso que faz meu estômago embrulhar no Natal.
O que acharam?Legal né(ou não...)?
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